Hoje, mais do que em qualquer outra época, há um número enorme de pessoas conscientes de sua responsabilidade social. Muitos empresários e executivos vêem a atividade comunitária como forma de motivar seus funcionários e colaboradores atuais, de adquirir a admiração do consumidor e da comunidade e de atrair uma nova geração de funcionários e colaboradores que valorizam esse tipo de atitude.
O erro que muitos de tais empresários e executivos cometem é sair por aí investindo recursos das respectivas empresas em projetos que, por falhas de concepção e/ou de implementação, acabam não dando certo. Ou em projetos sociais criados a partir “do nada”, sem antes pesquisar as experiências bem sucedidas. Ao agirem assim, sofrem os tropeços de todo iniciante. E muitas vezes perdem o estímulo para continuar investindo nessa área, na qual o Brasil tanto precisa de investimentos.
A solução, a meu ver, está na Franquia Social. A melhor forma de reproduzir experiências sociais de sucesso, evitando erros desnecessários, acelerando a curva de aprendizado e gerando resultados rapidamente.
Através da formatação de projetos sociais de sucesso, é viável o estabelecimento de "unidades remotas" de entidades bem sucedidas (as franqueadoras), implantadas, operadas e geridas por terceiros (os franqueados) de acordo com os princípios, padrões e atitudes que comprovadamente geram resultados.
Por experiência própria, afirmo que é possível reproduzir, na Área Social, o sucesso de quem sabe como fazer as coisas certas do jeito certo, da mesma forma que o Franchising “empresarial” vem permitindo fazer nos segmentos de Varejo e Serviços.
No Brasil do Segundo Setor, segundo dados do SEBRAE, de cada 100 empresas independentes (não-franquias) que são criadas, apenas 38 completam o primeiro ano de vida. É isso mesmo: 62% das pequenas e médias empresas que não integram uma rede quebram ou fecham suas portas por qualquer outro motivo antes de completar seu primeiro aniversário.
Já entre as franquias, a situação é bem outra: 97% chegam ao final do primeiro ano de vida!
Portanto, é evidente que o Franchising é uma estratégia de sucesso.
E o melhor é que, empregando-se fundamentalmente as mesmas técnicas e ferramentas utilizadas para “replicar” uma loja O Boticário, um restaurante McDonald’s, uma escola Yázigi-Internexus, uma agência de aluguel de carros Localiza ou uma unidade de coleta e processamento de encomendas rápidas Vaspex, é viável replicar uma creche da Comunidade Inamar, uma Escola de Informática e Cidadania do CDI, um centro de formação profissionalizante Formare ou qualquer outro projeto social que esteja dando certo.
Tanto é viável, que tem sido feito. E com bastante sucesso, diga-se de passagem.
Minha equipe do Grupo Cherto e eu tivemos envolvimento direto, nesses e em outros programas e projetos de Franquia Social. Portanto, podemos afirmar que o Franchising já vem fazendo muito pela disseminação consistente de programas sociais bem sucedidos. E pode fazer ainda mais.
Note o leitor que não quero passar a impressão de que nós, do Grupo Cherto, nos consideramos grandes conhecedores do sistema, ou “donos da verdade”.
Não é nada disso. Estamos sempre aprendendo coisas novas, o tempo todo e com pessoas e situações de todos os tipos. Estamos convencidos de que ninguém é tão bom que não tenha muito o que aprender, nem tão ruim que não tenha muito o que ensinar.
Além disso, até hoje ainda não participamos de dois projetos de Franquia Social que fossem exatamente iguais. Cada um tem as suas peculiaridades. E é isso o que os torna tão desafiadores e, em conseqüência, instigadores para nós.
Apesar dessa diversidade, todos os projetos de Franchising Social que conheci ou com os quais me envolvi até hoje começaram com uma entidade que faz algo bem feito, que gera resultados efetivos e com alguém, ou da própria instituição, ou, como acontece muitas vezes, de fora dela, que se deu conta de que aquilo que vem dando certo pode ser reproduzido, no todo ou em parte, mais ou menos com as mesmas características, ou a partir das mesmas bases e processos, em outros lugares e por outras pessoas ou entidades, tanto no Brasil, como no Exterior.
Aliás, é fundamental que esteja em funcionamento (e com sucesso) pelo menos uma unidade com as características gerais que se pretendem ver reproduzidas nas demais localidades. Não se franqueiam idéias, franqueiam-se conceitos, técnicas e metodologias que comprovadamente funcionam e que já foram testadas na prática. Em não existindo uma ou mais unidades em funcionamento, é preciso criar uma, a que se dá o nome de Unidade-Piloto, e operá-la durante um certo tempo, antes de se dar início à estruturação do projeto propriamente dita.
O passo seguinte envolve a elaboração, com ou sem o apoio de uma consultoria especializada, um Plano Estratégico da operação de franchising, para definir, entre outros aspectos da mesma:
· o que será franqueado;
· a quem (o perfil do franqueado é fundamental para o sucesso do projeto);
· em quais condições, sob quais circunstâncias;
· qual será o ritmo de expansão da rede;
· onde serão implantadas as franquias / quais são as prioridades na respectiva implantação;
· de que maneira se dará a sustentabilidade do projeto e das franquias;
· quem paga o quê para quem;
· que estrutura deve ser criada para nomear, coordenar e dar suporte aos franqueados
· e uma série de outros detalhes.
Isso definido e aprovado, dá-se início à “construção” das ferramentas e instrumentos de gestão de uma rede de franquias que garantirão diferenciais competitivos de curto, médio e longo prazos, tanto para a entidade franqueadora, como para suas franquias, inclusive permitindo que se identifiquem, “capturem” e disseminem as melhores práticas da rede.
De suma importância é entregar a condução do projeto a uma equipe altamente comprometida com seu sucesso. E, é claro, seja composta por pessoas com o perfil adequado e capacitadas para desempenhar as tarefas que competem a cada uma delas.
Afinal, dificilmente um projeto fracassa por erro de concepção. Geralmente o fracasso resulta de falhas na implementação. Até mesmo porque, como sabe qualquer um que já tenha se envolvido com projetos de qualquer natureza, uma boa idéia, se mal implementada, vale tanto quanto uma péssima idéia.
Marcelo Cherto ([email protected]) é presidente do Grupo Cherto e do Instituto Franchising, sócio-fundador e Conselheiro da Central Artesol (OSCIP responsável pela gestão do Programa Artesanato Solidário), professor de Franchising do curso de MBA-Varejo da USP, ex-professor de Franchising da FGV/SP e autor e co-autor de diversos livros sobre Franchising.
Marcelo Cherto